Com coronavírus, petróleo cai ao menor patamar em 17 anos

Com coronavírus, petróleo cai ao menor patamar em 17 anos

O preço do petróleo fechou atingiu nesta quarta (18) o menor nível desde o início dos anos 2000, diante do aumento das medidas de isolamento da população para enfrentar a pandemia de coronavírus em todo o mundo, que tem impacto na demanda de combustíveis.

Para especialistas ouvidos pela Folha, a manutenção do cenário por um longo período pode forçar petroleiras a rever planos de investimentos. Eles ressaltam, porém, que ainda é cedo para fazer projeções, já que é difícil estimar a duração dos efeitos da pandemia.

Referência mundial de preços, o petróleo do tipo Brent fechou em queda de 13,4%, a US$ 24,88 (R$ 129) por barril. É o menor valor desde 2003.

O petróleo WTI, negociado em Nova York, caiu 24,4%, para US$ 20,37 (R$ 106) por barril, a menor em 18 anos. Com queda acumulada de 56%, a cotação americana acumula a pior sequência de dez dias desde o início das negociações do contrato, em 1983.

O cenário de preços, que já vinha sofrendo com uma disputa entre Arábia Saudita e Rússia sobre cortes de produção, se agravou nos últimos dias, com a imposição de restrições para reduzir a contaminação pela Covid-19, como a suspensão de voos, a interrupção de negócios e o fechamento de escolas e ​áreas públicas.

Para o banco UBS, a demanda por petróleo no segundo trimestre de 2020 vai ser reduzida em 3,2 milhões de barris por dia – o equivalente ao recorde de produção atingido pelo Brasil em janeiro.

“Ontem vimos o [presidente dos Estados Unidos, Donald] Trump dizendo que poderia restringir o tráfego aéreo dentro dos EUA, já temos uma série de países com restrições de voos”, diz o analista da Ativa Investimentos, Ilan Arbetman.

“No cenário micro, o próprio fato de não ter aulas e de boa parte dos trabalhadores estarem em home office, tudo isso também mexe com a demanda de derivados de petróleo”, completa ele, lembrando que a disputa entre os exportadores se mantém, colocando mais pressão no mercado.

O recuo das cotações do petróleo tem efeitos no preço dos combustíveis —a Petrobras já cortou sete vezes o valor de venda da gasolina e do diesel em suas refinarias— mas também impacta negativamente as finanças de governos e as finanças das petroleiras.

Na semana passada, o secretário de Fazenda do Rio, Luiz Cláudio Rodrigues de Carvalho, classificou como hecatombe a disputa que, naquele momento, levou o petróleo para abaixo dos US$ 35 (R$ 182) por barril. Na sexta (13), o governo do estado bloqueou R$ 3 bilhões do orçamento para enfrentar a crise.
A situação pega o estado dependente do regime de recuperação fiscal, o programa de socorro da União, e com perspectiva de fortes impactos tanto na arrecadação quanto nos gastos durante a pandemia da Covid-19.

Especialistas evitam fazer projeções sobre a duração do choque de preços e seus impactos na economia. “A gente não sabe qual é a dimensão e como vamos bater o pico do coronavírus”, diz Godofredo Mendes Vianna, sócio da Kincaid Mendes Vianna.

“A Rússia diz que aguenta preços abaixo dos US$ 30 por dez anos. mas do jeito que está, não é benéfico para ninguém”, completa Arbetman. “Não é natural que a gente veja um prolongamento tão forte dessa tendência de baixa.”

A Petrobras diz que suas operações são resistentes a cotações baixas, “mesmo que permaneçam, na média, no atual patamar durante um ano”. A companhia ressaltou, porém, que considera prematuro avaliar o cenário atual, “uma vez que ainda não estão claras a intensidade e a persistência do choque de preços”.

Para analistas, porém, a empresa deve ter dificuldade para vender ativos e deve reduzir a projeção de investimentos. “Apesar de contínuas melhoras apresentadas nos custos de produção, o novo cenário de preços deve reduzir significativamente os retornos”, dizem Gabriel Carvalho e Luiz Barra, do banco UBS.

Diante do acirramento da crise, o banco reduziu sua projeção de preços do petróleo no segundo trimestre de US$ 50 para US$ 35 por barril. ​

Para Albertman, a empresa tende a concentrar ainda mais seus esforços no pré-sal, como já vinha fazendo nos últimos anos. “Sem dúvida com essa nova dinâmica, com essa nova conjuntura, creio eu que esse movimento será intensificado”, avalia.

Fonte: Folha de S.Paulo

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