Dólar a R$ 4,035

Dólar a R$ 4,035

O dólar comercial encerrou ontem em alta de 0,97%, a R$ 4,035, sua maior cotação desde setembro, com sinais de fragilidade na retomada econômica e o temor entre investidores de que a falta de articulação política possa atrapalhar a aprovação de reformas, sobretudo a da Previdência. O movimento foi acentuado pela alta do dólar em escala global. Na Bolsa, o índice de referência Ibovespa recuou 1,75%, aos 90.024 pontos, menor patamar do ano. A Bolsa já caía quando, no meio da tarde, o alerta do Ministério Público sobre a possibilidade de rompimento de uma mina da Vale ampliou a desvalorização. As ações da mineradora caíram 3,23%, a R$ 46,40.

Embora o dólar tenha subido globalmente, devido aos problemas domésticos o real teve a maior desvalorização frente à divisa americana entre as 31 principais moedas do mundo. Investidores estão insatisfeitos com a estagnação econômica e com a falta de fôlego da tramitação da reforma da Previdência. A pressão sobre o governo após as manifestações contra o bloqueio de recursos da Educação e as dificuldades de articulação no Congresso também influenciaram.

“O ruído atrapalha na articulação política em Brasília, e preocupa o mercado que lê isso como sinais de potenciais atrasos no andamento da reforma da Previdência”, destacou a equipe da XP Investimentos, em nota a clientes.

— O cenário interno não está ajudando em nada. As manifestações, a investigação sobre o Flávio Bolsonaro e a reforma da Previdência parada, tudo isso atinge o governo e mexe na expectativa dos investidores. Diante dessa instabilidade, vamos continuar vendo o dólar pressionado — afirmou Reginaldo Galhardo, gerente de câmbio Treviso Corretora.

Alvaro Bandeira, economista-chefe do banco digital Modalmais, afirmou que a base do governo está fragmentada, “num momento crítico que deveria estar coesa para conseguir votar projetos importantes”.

FITCH: ALÉM DA PREVIDÊNCIA

A divulgação de indicadores fracos tem levado a cortes nas projeções para o crescimento da economia brasileira este ano. Há previsões de até 0,8%, como a do BNP Paribas, inferior ao 1,1% registrado em 2018. Segundo economistas, o corte de juros seria um caminho para fazer a economia crescer. Em relatório divulgado ontem, o Bank of America Merrill Lynch previu que a Taxa Selic deve cair dos atuais 6,5% para 5,5% até o fim deste ano.

Em evento em São Paulo, o diretor da agência de classificação de risco Fitch Ratings, Rafael Guedes, afirmou que, mesmo que se passe uma reforma da Previdência robusta, sem crescimento econômico a dinâmica da dívida brasileira vai continuar sendo crescente. Além disso, em entrevista à agência de notícias Bloomberg, Rafael Cortez, analista político da Tendências Consultoria, afirmou que não seria surpresa se a reforma só fosse aprovada no ano que vem.

— A declaração do diretor da Fitch estressa o dólar ainda mais do que a questão da Vale —disse Pablo Spyer, da Mirae Asset.

O relator da reforma da Previdência, deputado Samuel Moreira (PSDB-SP), afirmou ontem que apresentará o seu relatório na comissão especial que analisa a matéria na primeira quinzena de junho. Em Dallas, o presidente Jair Bolsonaro reforçou a necessidade de aprovar a reforma:

— Dependemos muito da reforma da Previdência. É uma oportunidade de ouro que temos de mostrar ao mundo e ao Brasil que queremos responsabilidade em nossas despesas. Não podemos gastar mais do que arrecadamos.

O indicador de risco-país CDS, espécie de seguro contra calote da dívida soberana, subiu de 176 para 181 pontos, maior nível desde março.

No Ibovespa, as ações da Vale, que passaram boa parte do dia em alta, passaram a desabar depois de o Ministério Público de Minas Gerais recomendar à mineradora que mantenha a população de Barão de Cocais informada sobre riscos de rompimento na Mina de Gongo Seco. Isso, segundo o MP, poderia ocorrer entre 19 e 25 de maio.

Todas as ações de maior peso no Ibovespa fecharam em queda. A Petrobras recuou 2,36% (PN, com voto), enquanto o Banco do Brasil caiu 3,12%. O Itaú Unibanco perdeu 1,3%, enquanto o Bradesco se desvalorizou em 1,17%.

Na ponta contrária ficaram as ações dos frigoríficos. A JBS subiu 3,09%, enquanto a Marfrig saltrou 7,87%, após a divulgação do balanço com projeções otimistas para o ano. A BRF teve alta de 1,7%.

No cenário externo, a escalada das tensões entre Estados Unidos e China ajudou a puxar o dólar. Pesaram ainda dados positivos sobre a economia americana, que dão fôlego à expectativa de uma alta nos juros básicos do país. O Dollar Index, da Bloomberg, que acompanha o desempenho do dólar frente às dez principais divisas do mundo, avançou 0,3%, sua terceira alta seguida.

Fonte: O Globo

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