Economia sente efeito de cenário eleitoral e indicadores pioram

Economia sente efeito de cenário eleitoral e indicadores pioram

Um crescimento menor da economia do País em 2022, com juros e inflação em níveis mais altos, já domina as previsões dos agentes de mercado para o ano eleitoral. A preocupação com esse cenário ficou clara, ontem, em reunião de diretores do Banco Central e 42 analistas de instituições financeiras. No âmbito fiscal, os participantes relataram ao BC estar apreensivos com a preservação do teto de gastos, em meio à discussão sobre as mudanças no pagamento dos precatórios e o financiamento do Auxílio Brasil (novo nome do Bolsa Família). O dólar fechou o dia a R$ 5,37, alta de 2%. A Bolsa caiu 1% e atingiu o menor nível desde 1.º de abril, a 116,6 mil pontos. Pelo menos 20 empresas candidatas a IPO (oferta inicial de ações) devem aguardar uma melhor oportunidade para lançar suas operações.

Uma reunião realizada ontem entre diretores do Banco Central e analistas de instituições financeiras deixou clara a preocupação do mercado: a economia entrou no “modo eleição”, e isso significa risco para as contas públicas, em um momento de projeções piorando tanto para a inflação quanto para os juros e o PIB em 2022.

“No geral, todo mundo está batendo na tecla de que a eleição já começou”, resumiu um participante do encontro. “O viés mais negativo para o fiscal e o aumento da incerteza estão se refletindo no crescimento do ano que vem, sem necessariamente uma contrapartida da inflação.” Ou seja, o mercado já prevê um crescimento menor da economia, em um cenário de inflação ainda alta.

O BC faz reuniões periódicas, fechadas, com analistas do mercado para colher informações para a confecção do Relatório Trimestral de Inflação. Foram 42 analistas ontem. Pelo BC, participaram os diretores de Política Econômica, Fabio Kanczuk; de Política Monetária, Bruno Serra; e de Assuntos Internacionais, Fernanda Guardado. Eles não respondem a perguntas, apenas ouvem os analistas.

Segundo fontes, os analistas indicaram que a projeção mais baixa para a taxa básica de juros, a Selic, no fim do ciclo de alta iniciado este ano é de 7,5%, variando a até 8,5%. “Mas todos com viés de alta”, destacou um profissional. Para a inflação, a expectativa para este ano ficou em torno de 7,5% e, para 2022, entre 3,5% (centro da meta) e um pouco acima de 4%. “Há pouca gente convencida de 3,5%, e quem se manifestou nesse sentido apontou viés para cima”, disse uma fonte.

No âmbito fiscal, os participantes relataram preocupação com a preservação do teto de gastos, em meio à discussão sobre as mudanças no pagamento dos precatórios e o financiamento do Auxílio Brasil (novo nome do Bolsa Família). “O risco fiscal foi dominante na conversa. É a preocupação de todo mundo”, disse outro economista.

Em relação ao crescimento econômico, um participante mencionou que o cenário este ano está “dado”, com projeções de 5% a 6%, graças ao carrego estatístico elevado, mas que o ano que vem será mais desafiador. “Para a atividade econômica, a visão geral é de desaceleração, com crescimento entre 1% e 2% em 2022. A maioria vê perto de 2%”, disse outro analista.

Incerteza. O economista-chefe da consultoria LCA, Braulio Borges, destaca, porém, que o crescimento mais próximo de 2% está em risco tanto pela situação fiscal como pela incerteza política criada pelas ameaças do presidente Jair Bolsonaro à eleição de 2022. “Isso inibe as decisões de investimento e de consumo. Aí a economia entra num círculo vicioso: ela cresce menos, o governo arrecada menos e a situação fiscal piora.”

Borges, que não esteve na reunião do BC, acrescenta que o debate em torno dos precatórios acentuou a preocupação dos analistas em relação ao fiscal, deteriorando o preço dos ativos. “A percepção de que há um risco de se estourar o teto de gastos aumentou. Isso se reflete no câmbio.” Ontem, o dólar fechou a R$ 5,3759, maior patamar desde maio, com alta de 2%. Já a Bolsa caiu 1% e atingiu o menor patamar desde 1º de abril, ao encerrar a 116,6 mil pontos.

Para a economista Zeina Latif, as medidas que vêm sendo sugeridas pelo governo ainda indicam que Bolsonaro deverá encerrar o mandado com o País em uma situação pior do que a de 2018. “É uma piora institucional do ponto de vista fiscal. Se está perdendo a credibilidade fiscal. Hoje o debate é o precatório, amanhã é o Bolsa Família e assim VAI.”Um crescimento menor da economia do País em 2022, com juros e inflação em níveis mais altos, já domina as previsões dos agentes de mercado para o ano eleitoral. A preocupação com esse cenário ficou clara, ontem, em reunião de diretores do Banco Central e 42 analistas de instituições financeiras. No âmbito fiscal, os participantes relataram ao BC estar apreensivos com a preservação do teto de gastos, em meio à discussão sobre as mudanças no pagamento dos precatórios e o financiamento do Auxílio Brasil (novo nome do Bolsa Família). O dólar fechou o dia a R$ 5,37, alta de 2%. A Bolsa caiu 1% e atingiu o menor nível desde 1.º de abril, a 116,6 mil pontos. Pelo menos 20 empresas candidatas a IPO (oferta inicial de ações) devem aguardar uma melhor oportunidade para lançar suas operações.

Uma reunião realizada ontem entre diretores do Banco Central e analistas de instituições financeiras deixou clara a preocupação do mercado: a economia entrou no “modo eleição”, e isso significa risco para as contas públicas, em um momento de projeções piorando tanto para a inflação quanto para os juros e o PIB em 2022.

“No geral, todo mundo está batendo na tecla de que a eleição já começou”, resumiu um participante do encontro. “O viés mais negativo para o fiscal e o aumento da incerteza estão se refletindo no crescimento do ano que vem, sem necessariamente uma contrapartida da inflação.” Ou seja, o mercado já prevê um crescimento menor da economia, em um cenário de inflação ainda alta.

O BC faz reuniões periódicas, fechadas, com analistas do mercado para colher informações para a confecção do Relatório Trimestral de Inflação. Foram 42 analistas ontem. Pelo BC, participaram os diretores de Política Econômica, Fabio Kanczuk; de Política Monetária, Bruno Serra; e de Assuntos Internacionais, Fernanda Guardado. Eles não respondem a perguntas, apenas ouvem os analistas.

Segundo fontes, os analistas indicaram que a projeção mais baixa para a taxa básica de juros, a Selic, no fim do ciclo de alta iniciado este ano é de 7,5%, variando a até 8,5%. “Mas todos com viés de alta”, destacou um profissional. Para a inflação, a expectativa para este ano ficou em torno de 7,5% e, para 2022, entre 3,5% (centro da meta) e um pouco acima de 4%. “Há pouca gente convencida de 3,5%, e quem se manifestou nesse sentido apontou viés para cima”, disse uma fonte.

No âmbito fiscal, os participantes relataram preocupação com a preservação do teto de gastos, em meio à discussão sobre as mudanças no pagamento dos precatórios e o financiamento do Auxílio Brasil (novo nome do Bolsa Família). “O risco fiscal foi dominante na conversa. É a preocupação de todo mundo”, disse outro economista.

Em relação ao crescimento econômico, um participante mencionou que o cenário este ano está “dado”, com projeções de 5% a 6%, graças ao carrego estatístico elevado, mas que o ano que vem será mais desafiador. “Para a atividade econômica, a visão geral é de desaceleração, com crescimento entre 1% e 2% em 2022. A maioria vê perto de 2%”, disse outro analista.

Incerteza. O economista-chefe da consultoria LCA, Braulio Borges, destaca, porém, que o crescimento mais próximo de 2% está em risco tanto pela situação fiscal como pela incerteza política criada pelas ameaças do presidente Jair Bolsonaro à eleição de 2022. “Isso inibe as decisões de investimento e de consumo. Aí a economia entra num círculo vicioso: ela cresce menos, o governo arrecada menos e a situação fiscal piora.”

Borges, que não esteve na reunião do BC, acrescenta que o debate em torno dos precatórios acentuou a preocupação dos analistas em relação ao fiscal, deteriorando o preço dos ativos. “A percepção de que há um risco de se estourar o teto de gastos aumentou. Isso se reflete no câmbio.” Ontem, o dólar fechou a R$ 5,3759, maior patamar desde maio, com alta de 2%. Já a Bolsa caiu 1% e atingiu o menor patamar desde 1º de abril, ao encerrar a 116,6 mil pontos.

Para a economista Zeina Latif, as medidas que vêm sendo sugeridas pelo governo ainda indicam que Bolsonaro deverá encerrar o mandado com o País em uma situação pior do que a de 2018. “É uma piora institucional do ponto de vista fiscal. Se está perdendo a credibilidade fiscal. Hoje o debate é o precatório, amanhã é o Bolsa Família e assim VAI.”

‘A euforia acabou’, afirma ex-presidente do BC

Ex-presidente do Banco Central, Affonso Celso Pastore diz que está “comprada” uma desaceleração do PIB em 2022, ano de eleições, com a ação do Banco Central para barrar o descontrole da inflação. Ao Estadão, Pastore diz ainda que o populismo eleitoral do presidente Jair Bolsonaro já está retratado na piora dos preços e indicadores, e que a euforia da “Faria Lima” (principal centro financeiro da capital paulista) e dos empresários acabou. “O despertador tocou tão forte que não deu para ficar dormindo.” Para ele, uma piora da economia, que tira popularidade e voto, pode levar o presidente a forçar uma ruptura institucional.

• O mercado estava eufórico há alguns meses, a Bolsa subindo e o dólar a menos de R$ 5. O que mudou?

A inflação é sempre o bandido do filme. Nesse período, ela foi o mocinho. Quando o ministro (da Economia) Paulo Guedes e o Arthur Lira (presidente da Câmara) fecharam o acordo do Orçamento, ninguém contava com o crescimento do PIB nominal. Têm vários impostos que crescem com o PIB nominal. Tivemos a arrecadação tributária crescendo muito e vamos chegar com um déficit bem menor, abaixo de 1,5% do PIB. O mercado se animou. Disseram: ‘Que coisa boa! Baixou o risco’. A Faria Lima entrou em festa. A inflação acelerou, e o espaço no teto de gastos será menor. E, quando estava nesse ponto, caiu na cabeça do Paulo Guedes um meteoro chamado precatório.

• O cenário de agora pode empurrar o presidente Bolsonaro para uma agenda mais populista?

Ele vai tentar fazer um programa Bolsa Família maior. Na democracia, cada pessoa é um voto. O desempregado e o pobre têm o mesmo voto que o presidente de um banco. E tem muito mais desempregado e pobre. Quer ele olhe isso do ponto de vista humanitário, quer seja populista, que é o que eu acho que ele é, vai tentar fazer esse programa. Só que ele não tem espaço por causa do aumento dos precatórios. Ele manda uma PEC de parcelamento dos precatórios. Não muda o teto, mas muda a lei e pensa que está todo mundo distraído. Mas não está. O câmbio, que tinha chegado em R$ 5, está agora em R$ 5, 30. A taxa de juros de dez anos, que andava lá por 8%, já está acima de 10%. A euforia foi embora. Agora, o risco já está aparecendo na Bolsa. Esse é o clima com o qual o nosso presidente vai entrar na campanha eleitoral de 2022.

• Qual será a prioridade dele?

A única prioridade que eu consigo ver na cabeça do Bolsonaro é

• ‘Clima eleitoral’

se reeleger. Ele tem razões familiares, pessoais, de todos os tipos, a ponto de hostilizar as instituições e fazer uma campanha contra o voto eletrônico. A ponto de anunciar que vai pedir impeachment de ministros do Supremo, que estão simplesmente exercendo a sua função. Entre Executivo e Legislativo, a não ser a postura do Senado, que está mais sóbria, eu tenho a impressão de que há uma combinação de interesses muito forte. O Centrão está dentro do Executivo e dominando a Câmara. Independência aqui é uma questão questionável. Esse é o clima. Empresários já não estão tão quietos, porque, depois daquele manifesto, já temos visto gente que saiu da casca.

• Por que demorou tanto para sair da casca?

O sujeito não está acostumado. Ele não foi treinado para isso. Foi treinado para ser empresário. Ele espera que as coisas melhorem. Mas chega o momento que qualquer um sai da casca. Eu até admito que a demora seja explicável. Mas saiu, começou. O empresariado acordou. O despertador tocou tão forte, que não deu para ficar dormindo.

• Qual o peso da crise institucional provocada pelo presidente em afugentar os investimentos? Do ponto de vista de insegurança jurídica sobre investimentos, é péssimo. Se esperava que haveria investimento maior no ano que vem. O governo não pode gastar mais, porque, se ele gastar mais, a situação fica pior. Tem gente que cinicamente diz que o presidente não vai furar o teto, mas olha o artigo do Felipe Salto (diretor executivo da IFI) no Estadão. No artigo, ele está dizendo: não furou o teto porque subiram com o teto. Pode até dizer em público que o teto foi atendido, mas ele mudou. Consequentemente, sobem o câmbio e os juros e a Bolsa cai. Isso é o que me leva a dizer: o ano de 2022 é de perspectivas muito ruins.

• Muitos se enganaram com essa melhora das contas públicas? Sabe o que é miopia? Ele vê só o que está pertinho dele. Antes da minha operação de catarata, eu usava óculos de fundo de garrafa. Quando o tirava, eu via só dois centímetros na minha frente. No campo político, muita gente é extremamente míope, horizonte curtinho, só consegue ver cinco minutos à frente.

• Mas o mercado também não quis ver dessa forma por causa das apostas que tinha?

Claro. Há algum tempo eu tenho dito que a tendência do real é ficar fraco, e tem operador de banco, que ganha dinheiro em cima disso, defendendo para os seus clientes que o real vai se valorizar. O interesse dele é o bônus, o cara se engana a si mesmo e depois toma um susto; aí já é tarde. Eu não estou dizendo que o real vai ficar fraco porque sou malévolo. Eu estou falando porque estou vendo o risco, pipocas! Não estou interessado em vender um produto falso, mas em olhar as coisas como eu vejo.

• A combinação de menor crescimento, inflação alta e desemprego em 2022 não pode levar o presidente a acionar mais gastos para reverter esses problemas? Há uma probabilidade alta de que ele faça isso quando enxergar que a popularidade dele está baixa e que corre risco. Ele é um populista. Só que não precisa esperar isso acontecer para que apareça no preço dos ativos (dólar, juros, Bolsa).

• O sr. quer dizer que o populismo eleitoral do presidente já está nos preços?

Já está aparecendo. Não posso dizer que está inteiro nos preços. Num pedaço dos preços, já está lá. O que é essa crítica do Felipe Salto? É uma crítica ao populismo dele. O mercado já percebeu que o teto de gasto é volúvel, flexível. Sabe-se que não se consegue segurar a inflação se não tiver uma âncora. Uma âncora flutuante não segura nada. A âncora fiscal que nós temos é flutuante. Não serve!

• No cenário de hoje, a economia vai jogar contra ou a favor do presidente em 2022? Inflação alta, desemprego elevado, crescimento baixo é cenário hostil a qualquer governo. O que precisamos ver é qual será a reação do governo a isso. Só que o presidente diz o seguinte: ‘Se não for eu, a eleição é fajuta’. Será que ele vai em frente? O temor é que isso abra a possibilidade de uma crise institucional e um problema mais sério no campo político.

• Como o sr. traduz isso?

O presidente está dizendo que ele nega o resultado da eleição. Isso é muito grave.

• Uma piora da economia, que tira voto em 2022, pode levar o presidente a forçar a ruptura institucional?

Exatamente isso, com todas as letras.

• O BC sinalizou que terá de derrubar o crescimento econômico para controlar a aceleração da inflação. Estão caindo na real?

A taxa de juros está subindo agora e ela só estará no nível restritivo daqui a alguns meses. Isso vem no ano que vem.

• Guedes está cedendo muito para ficar no cargo?

Não sei. O fato é que ele está cedendo.

“O câmbio, que tinha chegado em R$ 5, está agora em R$ 5,30. A taxa de juros de 10 anos, que andava lá por 8%, já está acima de 10%. A euforia foi embora. Agora, o risco já está aparecendo na Bolsa. A Bolsa devolveu o que tinha ganhado esse ano. Esse é o clima com o qual o nosso presidente vai entrar na campanha eleitoral de 2022.”

Fonte: O Estado de S.Paulo

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