O presidente da Petrobras, Joaquim Silva e Luna, que no dia 13 deixará o cargo após ter sido demitido pelo presidente Jair Bolsonaro (PL), afirmou ontem que a estatal, por lei, não pode fazer política pública com os preços dos combustíveis e, “menos ainda”, política partidária. “Tem responsabilidade social? Tem. Pode fazer política pública? Não. Pode fazer política partidária? Menos ainda”, disse, em seminário no Superior Tribunal Militar, em resposta indireta a Bolsonaro, que nos últimos meses fez críticas públicas à política de preços da estatal.

Para Silva e Luna, o Brasil não pode correr riscos de tabelar preços de combustíveis. “Empresas que tabelaram combustíveis tiveram perda de capacidade de investimento”, disse. “Essa dívida ‘monstra’ da Petrobras foi de tabelamento de preço.”

Segundo ele, passados 25 anos da abertura do setor de petróleo e gás natural, a Petrobras ainda tem dificuldade de explicar à sociedade que precisa operar como empresa privada, já que compete com outras petroleiras. Por isso não pode fazer política pública nem partidária, o que, segundo ele, “tem gente que não entende”. Ele ressaltou que as decisões na Petrobras não são monocráticas e são fiscalizadas por 21 órgãos de controle. “Decisões tomadas são coletivas, não há lugar para aventureiros”, disse.

A falta de comunicação com a sociedade sobre o preço dos combustíveis teria sido um dos argumentos de Bolsonaro para a demissão do militar na noite de segunda-feira. Luna assumiu a presidência em abril passado, no lugar de Roberto Castello Branco, demitido pelo mesmo motivo. Para o lugar do militar foi indicado o economista Adriano Pires, também contrário à interferência do governo na estatal. •

Troca no comando não vai diminuir cobranças
A indicação do economista Adriano Pires à presidência da Petrobras deu um alívio imediato aos investidores de que o governo não promoverá um cavalo de pau na política de preços da empresa, mas ministros próximos do presidente Jair Bolsonaro avaliam que as cobranças para a queda de preços continuarão. Bolsonaro não se conforma que a estatal ainda não tenha reduzido os preços no cenário atual de queda do preço do petróleo no mercado internacional.

Segundo um auxiliar do presidente, ele não continuará a cobrar a estatal para reduzir preços. Quando a Petrobras anunciou o megarreajuste no começo do mês, o preço do petróleo Brent, principal referência internacional, já acumulava alta de mais de 40% no ano, e tinha alcançado US$ 139. Agora, o petróleo pode estar prestes a ser negociado em torno do nível de US$ 100.

Auxiliares do presidente lembram que o governo queria que a empresa esperasse um pouco mais o desenrolar da guerra da Rússia com a Ucrânia antes de sancionar o reajuste. Joaquim Silva e Luna não aceitou a pressão e acabou caindo numa articulação encabeçada pelo ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, e pelo ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque.

Se por um lado o risco de uma ação intervencionista diminuiu e as ações da empresa subiram (mais informações nesta página), por outro há incômodos com o fato de Pires ter atuado nos últimos anos como lobista para grandes grupos interessados em negócios na indústria de óleo e gás, segundo apurou o Estadão.

A preocupação de representantes do setor, que falaram na condição de anonimato, é de que possam existir interesses conflitantes em relação à Petrobras. O temor relatado é com a influência do Centrão na empresa e a desconfiança de que, por trás da indicação de Pires, estejam outros interesses de grupos na empresa que vão muito além do debate sobre preços de combustíveis.

No geral, porém, o mercado assimilou bem a troca porque as posições de Pires são muito conhecidas. Ele sempre foi um importante interlocutor em Brasília e fala com muita clareza, ponto que o governo espera explorar para comunicar melhor à sociedade os reajustes.

‘CPF NA MESA’. Há uma semana, o Estadão conversou com Pires para uma reportagem sobre brechas legais no projeto de lei aprovado pelo Senado, em tramitação agora na Câmara, que cria diretrizes de preços para diesel, gasolina e gás liquefeito de petróleo. Na conversa, o futuro presidente da Petrobras foi taxativo: “Acho muito difícil encontrar alguém que vá para a Petrobras para segurar preço”.

O comentário de Pires se referia à possibilidade de troca de comando da empresa e uma mudança da política de reajustes dos combustíveis praticada pela Petrobras, baseada na paridade de preços internacionais, chamada de PPI.

Para ele, mudar a política de preços não é difícil – isso já ocorreu no passado, citando o período do governo da ex-presidente Dilma Rousseff. “Do presidente Temer para cá, a empresa passa a ter uma política de tendência de mercado internacional”, lembrou ele sobre as mudanças feitas na empresa na presidência de Pedro Parente, que mudou as regras de compliance da empresa. Estaria nesse ponto a dificuldade de mudança agora. “Se alguém for para a Petrobras e segurar preço de combustível, está colocando o seu CPF na mesa”, afirmou usando uma expressão que significa ter de responder à Justiça ou a órgãos de controle por eventuais irregularidades.

Na entrevista, Pires defendeu a adoção de subsídio ao diesel e gás, mas se manifestou preocupado com o texto do projeto, classificado por ele como de inspiração “puro-sangue” do PT por ter autoria e relatoria no Senado de parlamentares do partido. Ele também comentou a posição do presidente Bolsonaro que, para ele, estaria numa situação desconfortável. “Se ele faz qualquer tipo de intervenção na Petrobras, de fato, ele é igual ao Lula”, disse.

No Congresso, o líder do governo, senador Eduardo Gomes (MDB-TO), avaliou que Pires é um técnico “respeitado por todas as correntes”.


Fonte: O Estado de S.Paulo