Ao aumentar em 18,7% o preço da gasolina e em 24,9% o do diesel a partir de hoje, nas refinarias, a Petrobras optou por repassar parcialmente, para o mercado doméstico, os efeitos da valorização recente do petróleo. A companhia não anulou a diferença de seus preços em relação à paridade de importação, mas volta a operar com defasagens dentro dos patamares pré-guerra na Ucrânia.

Os novos reajustes abrem espaço para viabilizar mais importações, num momento em que a oferta de derivados dá sinais de estresse em algumas regiões. A expectativa, contudo, é que poucas empresas se arriscarão no mercado externo, enquanto os preços da Petrobras continuam defasados.

A petroleira estava há 57 dias sem mexer nos preços do diesel e gasolina. A estatal também aumentou em 16% o preço do gás liquefeito de petróleo (GLP), depois de manter os preços do “gás de cozinha” congelados por 152 dias.

Os reajustes pressionarão os preços ao consumidor. A Ativa Investimentos estima que o aumento dos preços nas refinarias deve levar a uma alta de 6,2% no preço da gasolina nas bombas. Se confirmadas as projeções, o preço médio do combustível pode ultrapassar os R$ 7 o litro no país – realidade, aliás, já encontrada em algumas praças, como o Rio de Janeiro, mesmo antes de a Petrobras anunciar o reajuste. O litro da gasolina era vendido na quarta-feira, em média, a R$ 6,778, segundo pesquisa de mercado da Triad Reseach.

Segundo fontes, os efeitos do reajuste da Petrobras já podem começar a ser sentidos nos postos no fim de semana, sobretudo em regiões de maior movimento, onde as distribuidoras fazem compras diárias e os preços são atualizados, portanto, com mais velocidade.

A Petrobras justificou que não repassou a volatilidade, num primeiro momento, mas que, após os preços internacionais terem se mantido “consistentemente elevados”, o reajuste se tornou necessário “para que o mercado brasileiro continue sendo suprido, sem riscos de desabastecimento, pelos diferentes atores responsáveis pelo atendimento às diversas regiões”.

Com o aumento, o preço médio da gasolina nas refinarias da Petrobras custará R$ 3,86/litro. No caso do diesel, o valor cobrado subirá para R$ 4,51/litro, enquanto o quilo do GLP vai para R$ 4,48. A esses valores se somam impostos e margem de distribuição e revenda.

Mesmo assim, o Goldman Sachs estimou que os preços da estatal ainda se mantinham, ontem, 6% abaixo do preço de paridade de importação (PPI) no diesel e com defasagem de 12% na gasolina.

Segundo a Associação Brasileira de Importadores de Combustíveis (Abicom), a Petrobras volta, agora, a trabalhar com patamares de defasagem próximos aos níveis anteriores à guerra. Em fevereiro, antes mesmo da invasão da Ucrânia pela Rússia, o barril do petróleo já vinha sendo negociado acima de US$ 90, e a estatal, ao segurar os repasses, vinha praticando preços entre 6% e 13% abaixo do PPI.

A Petrobras dá um sinal positivo ao mercado de que está disposta a continuar a repassar, ainda que parcialmente, a alta dos preços internacionais. Na bolsa, as ações da petroleira recuperam parte das perdas da semana e subiram 2,8% (ordinárias) e 3,5% (preferenciais). Para o UBS BB, o reajuste “destaca a sólida governança da empresa e a livre política de preços, apesar de todo o barulho dos últimos anos”.

A diretora de downstream [abastecimento] do Instituto Brasileiro do Petróleo (IBP), Valéria Lima, afirmou que os reajustes reduzem riscos para a operação de outras empresas e ampliam a segurança no abastecimento. “É importante indicar que não há controles de preços no Brasil e que os importadores podem trazer cargas de fora e vendê-las no país”, disse Lima.

Com o agravamento da guerra na Ucrânia, a defasagem da Petrobras para o PPI havia atingido patamares muito elevados – de 20% a 40% desde a última semana – e que já começavam a dar sinais de desequilíbrio no funcionamento do mercado em algumas praças. Segundo uma fonte do setor, algumas distribuidoras pediram para que revendedores ajudassem a racionar, sobretudo, diesel S-10.

As tradings privadas afirmam que, mesmo com o aumento dos preços da Petrobras, as janelas seguem fechadas para as importadoras associadas à Abicom – que acusam a estatal de segurar reajustes sistematicamente e não têm conseguido realizar operações em 2022. Já a Petrobras informou que mantém o compromisso com preços competitivos e em equilíbrio com o mercado, ao mesmo tempo em que evita o repasse imediato das volatilidades externas “causadas por eventos conjunturais”.

“É muito importante que a Petrobras siga perseguindo a paridade de importação, para a construção de um ambiente de negócios favorável e para a realização de investimentos. É uma pena que a companhia tenha demorado quase 60 dias para fazer essa movimentação”, disse o presidente da Abicom, Sérgio Araújo.

A expectativa, porém, é que o reajuste da Petrobras viabilize mais importações por parte das grandes distribuidoras. “O reajuste afasta a possibilidade de falta de produto. Mesmo que ainda exista uma diferença em relação aos preços internacionais, o mercado é dinâmico, então podem aparecer oportunidades de acessar produtos para importar que tenham um preço mais em conta. Antes, a diferença era tão grande que não se conseguia vislumbrar essa oportunidade”, disse um executivo.

Empresas como a Vibra, Raízen e Ipiranga têm redes próprias maiores, com contratos de exclusividade de fornecimento, e geralmente mantêm as importações mesmo durante momentos de defasagem nos preços da Petrobras. Com uma rede grande de postos bandeirados e volumes gigantes, elas têm menos dificuldades na hora de diluir custos. Mesmo assim, elas não vinham passando ilesas. A Ipiranga, por exemplo, comunicou aos revendedores, nesta semana, que analisaria cada pedido dos clientes antes de liberar as entregas de diesel – sinal de que a oferta está curta, dizem fontes.

Do lado político, há quem avalie que o reajuste pode colocar nova pressão sobre a Petrobras. O alinhamento dos preços da estatal ao mercado internacional é alvo de críticas da oposição e do governo de Jair Bolsonaro – que, segundo fontes, pressionou o presidente da petroleira, Joaquim Silva e Luna, a congelar os preços temporariamente. O general, por sua vez, vinha defendendo a necessidade dos reajustes, devido aos riscos de desabastecimento. Ontem, o ministro da Economia, Paulo Guedes, negou que o governo tenha cogitado mudar a política de preços da Petrobras. “Dada a magnitude dos ajustes, acreditamos que isso pode levar a mais ruído negativo do governo em torno da política de preços”, ressalva o Goldman Sachs.

Fonte: Texto extraído da Agência UDOP

Fonte: Valor Econômico