Sessão é encerrada após ataque a Guedes

Sessão é encerrada após ataque a Guedes

Acabou em briga e troca de palavrões o primeiro teste do ministro da Economia, Paulo Guedes, na audiência pública na Comissão de Constituição de Constituição e Justiça (CCJ) sobre a reforma da Previdência. Depois de seis horas e meia de sessão com sucessivos bate-bocas com a tropa da oposição, o ministro caiu na provocação do deputado Zeca Dirceu (PT-PR) que o acusou de ser “tigrão” com os aposentados, idosos de baixa renda e agricultores, mas “tchutchuca” com privilegiados do Brasil.

O ataque do petista, filho do ex-ministro petista José Dirceu, levou à explosão final de Guedes, que, com dedo em riste, reagiu com destempero fora do microfone. “Eu não vim aqui para ser desrespeitado, não. (…) Tchutchuca é a mãe, é a avó, respeita as pessoas. (…) Isso é ofensa”, afirmou. Zeca começou as críticas perguntando a razão pela qual Guedes iniciou as reformas com a da Previdência e não alterações que afetassem os banqueiros.

A partir daí, o clima ficou insustentável e, em meio ao intenso bate-boca entre os parlamentares, o presidente da CCJ, Felipe Francischini (PSL-PR), perdeu o controle da situação. Sem experiência e com apenas 27 anos, ele não conseguiu conduzir com firmeza a sessão, e já havia deixado a gritaria dominar o encontro outras vezes.

Polícia. Com o fim da sessão, parlamentares da oposição foram até à mesa para tentar falar com o ministro. O bate-boca continuou entre Guedes e Zeca Dirceu e, depois, com a deputada Maria do Rosário (PT-RS). Diante da confusão, a Polícia Legislativa foi acionada. Integrantes do Ministério da Economia tentaram conter o ministro e o isolaram no fundo do plenário da CCJ. Um segurança do ministério protegia Guedes com um braço à frente do ministro, impedindo a aproximação de parlamentares mais exaltados. O líder do PSL na Câmara, Delegado Waldir (GO), tentou retirar Guedes. “Não fica com bandido não, vamos embora”.

Guedes saiu da Câmara escoltado pela Polícia Legislativa, sem falar com a imprensa. O episódio deixou integrantes do governo desanimados, embora o discurso seja o de que esse foi um “capítulo triste”, mas que o “show precisa continuar”.

Em meio à confusão, Maria do Rosário disse ter sido agredida pela assessora especial para Assuntos Estratégicos do Ministério da Economia, Daniella Marques, que foi levada pela Polícia Legislativa para ser ouvida. A assessora ficou cerca de 20 minutos no local e deixou a Polícia sem falar. O Ministério da Economia não se pronunciou.

A jornalistas, Maria do Rosário disse que não tinha como se lembrar se havia sido “fisicamente” empurrada por Daniella, mas afirmou que foi agredida porque a assessora a impediu de exercer sua função parlamentar ao interromper sua conversa com Guedes. Ela afirmou que não pretende prestar queixa, mas recomendou que, se Daniella voltar ao Congresso, respeite os parlamentares.

Tensão. Diante da importância da missão, o ministro recebeu um “treinamento” na manhã de ontem, horas antes de ser metralhado pelas perguntas dos parlamentares. Do outro lado da trincheira, a oposição também se articulou para fazer as primeiras inscrições – como resultado, dominou as primeiras cinco horas de debate.

A sessão foi tensa desde o início. Ainda em sua fala inicial, após 36 minutos do começo da audiência, Guedes se exaltou pela primeira vez ao cair na armadilha dos deputados da oposição. Ao longo da sessão, ele foi acusado de mentiroso, rentista do mercado financeiro e cruel por querer formar uma “legião de pobres” com a capitalização. Guedes partiu para um embate direto com os oposicionistas, com ironias e ataques aos dois governos do PT.

Em outro momento da discussão, ele questionou parlamentares da oposição: “Por que vocês não botaram imposto sobre dividendos? Por que deram dinheiro para a JBS?”. Se voltando para os congressistas, Guedes rebateu: “Nós estamos há três meses e vocês tiveram 18 anos (de poder) e não tiveram coragem de mudar”. Houve reação dos deputados atacados. Diante da gritaria, o ministro reagiu: “A Casa não está me respeitando. A Casa não me dá o direito de falar”.

O primeiro embate teve como estopim o sistema de capitalização. Guedes disse aos deputados: “Se quiserem, embarquem seus filhos no avião em que vocês estão e vão acabar como Rio de Janeiro, Minas Gerais”. A fala do ministro foi recebida com aplausos dos parlamentares governistas, enquanto representantes da oposição gritavam “Chile”, em alusão aos problemas previdenciários pelos quais passa o país citado como exemplo de sucesso por Paulo Guedes. “O Chile tem quase o dobro da renda per capita do que o Brasil, acho que a Venezuela está melhor”, ironizou. Após esse primeiro episódio, ele ainda tentou apaziguar os ânimos. “Tenho de dar explicações e não preciso me exaltar, me desculpem”, disse.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), acompanhou a sessão em vários momentos num gesto de apoio a Guedes, mas não se intrometeu. O líder do governo, Major Vitor Hugo (PFL-GO), teve uma participação tímida, sem defesa contundente.

Em relação à aposentadoria dos militares, Guedes disse que os deputados não deveriam perguntar a um ministro por que ele não cortou a aposentadoria dos militares. “Cortem vocês, vocês são o poder. Vocês têm medo de fazer isso?”

Reação. O mercado reagiu mal à tensão na audiência da CCJ. A Bolsa, que operava em alta até o começo da tarde, fechou em queda 0,94%, aos 94.491. O dólar encerrou o dia com alta de 0,55%, cotado a R$ 3,88.

“Eu não vim aqui para ser desrespeitado, não. (…) Tchutchuca é a mãe, é a avó, respeita as pessoas. (…) Isso é ofensa. Eu respeito quem me respeita. Se você não me respeita, não merece meu respeito.”

“Por que vocês não botaram imposto sobre dividendos? Por que deram dinheiro para a JBS?”

“Nós estamos há três meses e vocês tiveram 18 anos (de poder) e não tiveram coragem de mudar”

“Eu posso estar errando em várias maneiras. Eu posso estar errado. A única garantia que eu dou é que estou tentando fazer o meu melhor” Paulo Guedes MINISTRO DA ECONOMIA

Fonte: O Estado de S. Paulo

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