Setor de serviços cresce pelo quinto mês seguido, mas não recupera perdas da pandemia

Setor de serviços cresce pelo quinto mês seguido, mas não recupera perdas da pandemia

O setor de serviços, considerado o motor do PIB brasileiro, cresceu 1,7% em outubro, na comparação com setembro, segundo divulgou hoje o IBGE. É a quinta alta seguida, mas ainda insuficiente para compensar as perdas da pandemia.

O resultado veio acima das expectativas de analistas ouvidos pela Reuters, que projetavam 1% de avanço. Mas o setor acumula queda de 6,8% em 12 meses, a maior retração desde o início da série histórica, em dezembro de 2012, para esse indicador. Em relação a outubro de 2019, o setor recuou 7,4%, registrando a oitava taxa negativa seguida nessa comparação.

— Mesmo com cinco meses de avanço, esse saldo positivo é ainda insuficiente para o setor chegar ao patamar pré-pandemia de fevereiro de 2020. Precisa crescer ainda 6,5% para chegar a este patamar. Esse setor tem a característica de ser muito presencial e, com isso, foi muito afetado na pandemia— avalia o gerente da pesquisa, Rodrigo Lobo.

Esse movimento de lenta recuperação é percebido especialmente nos segmentos de transportes e turismo, o que deve levar o setor de serviços a encerrar o ano de 2020 com a pior retração desde que o IBGE começou a coletar os dados para a pesquisa.

Patamar próximo ao da greve dos caminhoneiros
O que contribui para esse cenário, segundo Lobo, é um repique da pandemia, volta do isolamento social em algumas cidades e limitação de atendimento em estabelecimentos:

— Tudo isso nos faz acreditar que serviços não terão reviravolta até o fim do ano. Para o setor fechar 2020 no campo positivo, teria que ter taxas estratosféricas de crescimento nos meses de novembro e dezembro, o que é impensável.

O patamar atual de atividade do setor é próximo ao de maio de 2018, quando ocorreu a greve dos caminhoneiros. No entanto, há dois anos, a recuperação foi rápida e percebida já no mês seguinte.

— Agora, é diferente. Não se recupera da mesma velocidade — diz Lobo.

Serviços incluem restaurantes e hotéis, por exemplo, negócios que foram muito afetados pelas regras de isolamento. Das três grandes áreas da economia, é a única que ainda não retornou ao nível pré-pandemia e apresenta mais dificuldade do que outros segmentos da economia para se recuperar.

Indústria e comércio já têm desempenho melhor que o do período anterior ao avanço da Covid-19. Na quinta-feira, o IBGE mostrou que as vendas no varejo surpreenderam em outubro e cresceram pelo sexto mês seguido.

O economista-chefe da corretora Ativa, Étore Sanchez, pontua que, mesmo não engrenando a todo vapor, o setor está se revertendo em uma velocidade melhor do que esperava. Ele diz que pode haver mudanças nessa reta final do ano por causa das restrições de mobilidade, em decorrência do aumento no número de casos de infeção do coronavírus. Porém, pondera que a taxa de serviços foi estável no último trimestre e deve se manter assim por enquanto.

— Os serviços só serão restabelecidos com a retomada da confiança e com a plena circulação das pessoas, e isso só se dará com a vacina. Por exemplo, o setor aéreo não será totalmente estabelecido enquanto os hotéis atenderem um número menor de hóspedes.

Alta puxada por uso da internet
Em outubro, quatro das cinco atividades pesquisadas na área de serviços cresceram, com destaque para Informação e comunicação (2,6%). Apenas o setor de Outros serviços (-3,5%) registrou taxa negativa. Ainda assim, esse último é o que tem apresentado melhor desempenho nos últimos meses.
Dentro de Informação e comunicação, o segmento de Tecnologia da Informação demonstra dinamismo e recuperação, sendo um dos poucos com resultado positivo no acumulado do ano.

Lobo explica que o resultado se deve porque Informação e comunicação tem o maior peso, de 34,5% no total de serviços, e foi puxado pelo aumento do uso da internet e serviços digitais, que cresceram na pandemia, uma vez que as pessoas estão recorrendo mais a canais virtuais.

Um outro setor que vinha bastante prejudicado pela pandemia, especialmente entre março e abril, com menos pessoas circulando, e está conseguindo se recuperar é o de Transportes. Embora também não tenha atingido ainda o nível de fevereiro, subiu pelo sexto mês consecutivo.

O pesquisador associado do FGV/Ibre, Claudio Considera, lembra que os dados divulgados hoje são referentes ao período de setembro a outubro, quando os serviços já vinham de uma sequência de desaceleração desde junho, ainda que com taxas mensais sejam positivas. Para ele, a recuperação em serviços não é exatamente uma melhora, mas, sim, apenas um impacto menos pior.

— A economia vinha crescendo com serviços antes da pandemia e de repente caiu, especialmente o consumo de serviços dentro das famílias. Ainda há vários impedimentos para a retomada do setor, as pessoas estão com medo de sair. Isso diminui transporte, alimentação fora de casa, afeta tudo.

Revisão de dados
O IBGE revisou os dados do setor de serviços de junho e de setembro. Ambos tiveram altas superiores às divulgadas anteriormente. Em junho, o crescimento foi de 5,5%, e não de 5,3%, enquanto o de setembro passou de 1,8% para 2,1%.


Fonte: O Globo

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