Recém-empossado, José Mauro Ferreira Coelho terá em breve um encontro com o primeiro grande teste à frente da presidência da Petrobras: a necessidade do reajuste do diesel.

Com o preço do petróleo Brent no mercado internacional em torno de US$ 110, e o dólar nos níveis atuais, será extremamente difícil para a empresa segurar tamanha defasagem por muitos dias.

Uma referência usada pelo mercado de óleo e gás é o benchmark do “heating oil”, o prêmio sobre o preço do petróleo para o diesel, que explodiu recentemente. Por conta da guerra na Ucrânia e de toda a pressão política sobre o gás da Rússia, o óleo usado para aquecimento é a alternativa.

Bolsonaro demitiu os dois antecessores de José Mauro (Roberto Castello Branco e Joaquim Silva e Luna) em razão da irritação com o reajuste dos combustíveis. O presidente não se conforma com a política vinculada ao preço internacional e arrumou um grande quiproquó antes da mudança de comando da empresa que abalou a sua imagem.

Uma nova rodada de alta no preço do diesel no mercado internacional é uma das preocupações que estão no radar do Banco Central, que vem a cada mês se surpreendendo com a inflação. O BC saiu na frente dos países no ciclo de aperto de juros, mas a guerra acabou por prolongar o choque de preços que começou na pandemia da covid-19. Uma tempestade perfeita justamente no momento em que a economia estava saindo de volta para um ambiente de maior mobilidade. Esse novo choque provocado pela guerra, que levou à alta maior dos combustíveis e alimentos, acabou por intensificar os choques anteriores.

Essa combinação de choques tem deixado o mercado disfuncional e aprendizado para todos com os seus efeitos temporários, que vem inibindo a ação do BC e “sujando” o canal de transmissão da política monetária no curto prazo.

Com o cenário tão incerto, nunca foi tão difícil identificar o ponto de inflexão (reversão) da inflação. É nesse ambiente que especialistas enxergam como necessário o repasse do diesel para não haver problemas de falta de combustíveis e maior pressão nos preços.

O BC está administrando a pressão num ambiente hostil. No mercado há uma pressão cada vez maior para que o banco admita oficialmente que nesse cenário de múltiplos choques não tem como fazer um política usual. A queixa é de que o BC está calibrando a política de juros com expectativa de inflação de 4% para 2023 (apontada no Focus) que todo o mercado sabe está defasada e acima de 5%.


Fonte: O Estado de S.Paulo (Adriana Fernandes)