Apesar do aumento anunciado pela Petrobras na manhã desta segunda-feira, a defasagem do diesel ainda está em 11% (cerca de R$ 0,61) por litro, de acordo com cálculo da Abicom, a associação que reúne as importadoras do setor de combustíveis.

No caso da gasolina, que não passa por reajuste desde meados de março, a defasagem chega a 19% (ou R$ 0,93). Segundo a Abicom, os percentuais são médias dos postos de abastecimentos pesquisados.

Segundo Sérgio Araujo, presidente da Abicom, o aumento no preço do diesel anunciado pela estatal não será suficiente para repor as perdas com a defasagem.

— Os preços estavam defasados há 60 dias. Muitas empresas deixaram de importar. Por isso, pode haver falta de combustível pontual em postos de bandeira branca. Por outro lado, não acredito em falta de combustível, pois Petrobras e as outras grandes distribuidoras vêm aumentando as importações — disse Araujo.

Segundo ele, a gasolina também deveria ter tido reajuste, já que está desde 11 de março sem reajuste.

— Isso vai pressionar o etanol, prejudicando a rentabilidade dos produtores — afirmou Araujo.

Pressão por gasolina
Segundo o advogado Gustavo Oliveira de Sa e Benevides, sócio da GSB Consultants, o mercado já espera um aumento no preço da gasolina.

— Agora vemos uma pressão maior no diesel do que na gasolina, por conta do alto consumo de diesel na Europa, cujo fornecimento foi fortemente afetado pela guerra. Além disso, a defasagem no diesel era de R$ 1,60 e na gasolina era de R$ 0,80. Então, a Petrobras decidiu focar primeiramente no diesel. Mas me parece que virá um ajuste posteriormente, só não quiseram fazer os dois ao mesmo tempo.

Evolução dos preços do diesel

Cristiano Costa, diretor de Trading de diesel e gasolina da BGN, diz que o aumento do diesel pela Petrobras reflete a falta de produto no mundo inteiro.

Ele cita que os preços globais estão em alta por conta do momento de retomada econômica com a reabertura das economias, além dos impactos com a guerra na Ucrânia, com o corte do fornecimento de gás, e os poblemas climáticos na Índia, um dos maiores refinadores do mundo, com enchentes e, agora, com queimadas.

— A oferta está desconectada com a demanda global. O diesel está em falta hoje no mundo inteiro. O mercado na Europa tem comprado tudo — disse Costa, lembrando ainda que há frio em vários países no Hemisfério Norte.

China pode influenciar preços
Segundo ele, assim, há uma pressão maior no diesel em relação à gasolina.

— As refinarias nos Estados Unidos anunciaram que neste verão vão priorizar a produção de diesel e não gasolina, fato histórico para os Estados Unidos. O aumento do diesel no Brasil reflete a forte alta dos preços no mercado internacional.

Gustavo Oliveira de Sa e Benevides, sócio da GSB Consultants, lembrou que o diesel sofreu um aumento de 70,22% nos últimos dois meses no mercado internacional. Ele destacou que cerca de 30% do mercado é atendido pelas importações.

— Mas como a carga de diesel está extremamente cara, nenhuma importadora ou player independente estava tomando o risco de trazer uma carga para o Brasil e não conseguir vender porque a Petrobras estava vendendo ainda a preços muito inferiores ao mercado internacional. E como a guerra está se estendendo e as sanções contra o petróleo russo se intensificando, o preço do diesel acabou se normalizando neste patamar 70% mais alto que antes da guerra.

Ele lembra que, se a China relaxar com as atuais medidas que tomou contra os aumentos de caso de Covid-19 e aumentar novamente o seu consumo, a tendência é de que haja um aumento de preços.

Pressão inflacionária
O aumento no preço do diesel pode até não impactar diretamente de forma expressiva o orçamento familiar, já que a maioria dos carros é movida a gasolina, etanol ou GNV.

No entanto, como esse combustível é usado pelos caminhoneiros, que transportam quase tudo o que consumimos, a alta anunciada pela Petrobras pode se espalhar na cadeia produtiva por meio do frete e elevar, indiretamente, o custo de diversos itens. O resultado final, então, é uma pressão inflacionária ainda maior.

O economista da FGV André Braz diz que o aumento no diesel pode afetar do preço dos alimentos ao custo do transporte público:

— O diesel influencia o preço do frete, da geração de energia e da produção com máquinas no campo. Também pode levar a um aumento nas passagens de ônibus, do qual o trabalhador depende diariamente, já que representa 35% do custo das empresas rodoviárias.

Em nota, a Associação Brasileira de Veículos Automotores (Abrava) defende o fim da política de preços com paridade internacional e, por enquanto, orienta os autônomos a repassarem os custos.

“Os caminhoneiros não sobrevivem mais se não repassarem os aumentos dos combustíveis para os fretes. Como liderança, é essa a nossa orientação para a categoria”, comunicou a Abrava.

O aumento do diesel, segundo Wallace Landim, representante da associação, chega ao consumidor final nas feiras livres logo no dia seguinte em que é sentido nas bombas, por meio do aumento do custo no transporte de hortaliças.

Até agora, segundo o Índice de Preços ao Consumidor (IPC), da FGV, o diesel subiu 49% em doze meses. Braz calcula que, com o novo ajuste, o acumulado do combustível chegue a 55%.

Além da perda do poder de compra, a economista e professora do Ibmec RJ, Vivian Almeida, argumenta que a pressão inflacionária pode afetar as decisões presentes reais e as expectativas futuras. A esse processo, dá o nome de tragédia inflacionária.

— A cada aumento de preços, você muda as expectativas dos tomares de decisão. Esse cenário inibe a abertura de novas empresas, por exemplo, e a geração de novas vagas de emprego.
FONTE: O Globo